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Política

Janja elogia Marisa Letícia, primeira mulher de Lula

Menção à ex-primeira-dama ocorre após episódios de tensão em torno de sua memória e em meio à tentativa de Lula de reforçar laços com as origens do PT e com o eleitorado feminino.

20 de agosto de 2026 às 20:46

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Janja elogia Marisa Letícia, primeira mulher de Lula
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A homenagem de Janja a Marisa Letícia no primeiro ato da campanha de Lula à reeleição foi a primeira manifestação da atual primeira-dama a respeito da antecessora em um discurso público. A menção ocorreu no domingo (16), na antiga Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, palco das greves do ABC que projetaram Lula e símbolo de sua trajetória política e das origens do PT.

O contexto ajuda a entender o peso político do gesto. A campanha tem recuperado símbolos da trajetória de Lula, dado maior protagonismo às mulheres e buscado reforçar sua presença entre as eleitoras. A homenagem também vem depois de episódios que expuseram desconfortos em torno da memória de Marisa e em meio a críticas de petistas e antigos aliados à influência de Janja no entorno do presidente.

A escolha de Marisa tem simbolismo particular. Ela acompanhou Lula desde a fase sindical, participou das origens do PT e é uma figura associada à geração de sindicalistas e petistas que esteve ao lado do presidente em sua ascensão política, justamente um grupo que reclama, nos bastidores, de maior dificuldade para encontrá-lo atualmente.

No discurso, Janja recuperou esse papel ao lembrar as mulheres que deram sustentação às greves do ABC no fim dos anos 1970. "Essas mulheres, lideradas por dona Marisa, foram uma força importante e são pouco lembradas. Sem a presença delas, presidente, talvez essa história toda tivesse sido diferente", afirmou. A primeira-dama também recordou que Marisa confeccionou a primeira bandeira do PT e disse que dedicava à ex-primeira-dama sua admiração.

Janja prestou homenagem a dona Marisa durante comício que marcou o primeiro ato de campanha de Lula em São Bernardo do Campo.

Janja prestou homenagem a dona Marisa durante comício que marcou o primeiro ato de campanha de Lula em São Bernardo do Campo.Raul Luciano/AtoPress/Folhapress

Uma memória que já provocou atritos

A referência à bandeira toca em um episódio delicado. Em fevereiro de 2024, uma publicação nas redes de Lula sobre o aniversário do PT retirou de um texto do presidente justamente a passagem que mencionava Marisa e relatava como ela havia costurado uma estrela branca sobre um pano vermelho. Luís Cláudio Lula da Silva, filho de Lula e Marisa, reagiu publicamente: "A história da minha mãe ninguém apaga, não." A postagem foi depois refeita com a referência à ex-primeira-dama.

As menções do próprio Lula a Marisa pelo nome também têm sido pouco frequentes no terceiro mandato. Em junho de 2023, ao recordar a casa onde viveu com ela e os filhos, o presidente se referiu à ex-esposa apenas como "minha mulher". Na posse para o terceiro mandato, em janeiro daquele ano, também não mencionou Marisa, que havia subido a rampa do Planalto ao lado dele nas duas primeiras posses.

Outro episódio ocorreu em julho deste ano, quando Janja afirmou que a sociedade brasileira "nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse efetivamente", como ela. Ao citar sua rotina de reuniões no Planalto, viagens e agendas, provocou críticas de quem interpretou a declaração como uma desconsideração ao papel das antecessoras, entre elas Marisa.

Perfis diferentes e resistências internas

Marisa e Janja adotaram formas bastante distintas de exercer o papel de primeira-dama. Casada com Lula de 1974 até sua morte, em 2017, Marisa tinha perfil mais reservado. Concentrou-se na família e nos bastidores, mas participou da trajetória sindical do marido, das origens do PT e das primeiras campanhas do petista, mantendo baixa exposição pública quando Lula chegou à Presidência.

Lula e Marisa Letícia em 2011.

Lula e Marisa Letícia em 2011.Ricardo Stuckert/PR

Janja reivindica uma atuação pública própria, com presença em reuniões, viagens, eventos e pautas do governo. Lula já defendeu esse perfil. Em março de 2025, ao responder a críticas sobre uma viagem da primeira-dama ao Japão, afirmou: "Ela vai continuar fazendo o que ela gosta, porque a mulher do presidente Lula não nasceu para ser dona de casa."

A primeira-dama enfrenta resistências no próprio campo governista. Petistas e sindicalistas históricos relatam nos bastidores maior dificuldade para ter acesso ao presidente, e parte deles atribui a Janja esse distanciamento. Nesse ambiente, a homenagem a uma figura valorizada pela velha guarda petista e sindical também pode ser interpretada como um gesto de aproximação.

Mulheres no centro da campanha

Há ainda um componente eleitoral. Lula inicia a campanha com desempenho melhor entre as mulheres do que entre os homens nas pesquisas. Flávio Bolsonaro, por sua vez, tenta reduzir essa diferença com o apoio de Michelle Bolsonaro, numa disputa por um eleitorado que representa a maioria dos votantes do país.

Duas semanas antes, o tema já havia causado constrangimento na convenção que oficializou a candidatura de Lula: a programação inicialmente não previa nenhuma mulher entre os discursos. O presidente classificou a ausência como um erro e chamou Janja ao palco.

A escolha da Vila Euclides como palco da homenagem reforçou o simbolismo. O PT apresentou o lançamento da campanha como uma volta ao lugar "onde tudo começou", numa referência às origens sindicais de Lula. Marisa fazia parte justamente daquela história.

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