Por Malone

ATENÇÃO: o texto a seguir contém spoilers de Resident Evil (2026).
O novo Resident Evil, dirigido por Zach Cregger, chegou aos cinemas cercado por expectativas — e a resposta do público parece ter acompanhado o interesse. O longa estreou com US$ 60 milhões nos Estados Unidos e US$ 48,3 milhões no mercado internacional, totalizando US$ 108,3 milhões mundialmente em seu primeiro fim de semana, tornando-se a maior estreia da franquia.
Mas, para quem acompanha Resident Evil principalmente pelos jogos, talvez o principal mérito do filme não esteja na bilheteria.
Está na sensação.
Depois de tantas tentativas de adaptar a franquia para o cinema, o novo longa finalmente consegue transmitir a impressão de que aquela história realmente poderia estar acontecendo dentro do universo de Resident Evil, sem necessariamente precisar recontar algum dos jogos.
E isso faz uma diferença enorme.
Uma história paralela aos jogos
Quando comparado principalmente às sequências da era Paul W. S. Anderson e também a Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City, o novo filme encontra um caminho consideravelmente mais interessante.
Ele não tenta transformar Bryan em Leon Kennedy, Chris Redfield ou qualquer outro personagem clássico.
Também não tenta pegar os acontecimentos de um jogo específico e comprimi-los dentro de duas horas.
Em vez disso, acompanha uma pessoa comum que acaba entrando naquele pesadelo.
Nesse sentido, talvez a comparação mais interessante seja justamente com Resident Evil Outbreak.
Outbreak sempre teve uma característica particular dentro da franquia: enquanto personagens importantes estavam vivendo suas próprias histórias, pessoas comuns também tentavam sobreviver ao caos de Raccoon City.
É exatamente essa sensação que o novo filme consegue transmitir.
O próprio Zach Cregger já havia explicado antes do lançamento que sua intenção era contar outra história dentro daquele universo, mantendo a sensação dos jogos sem interferir diretamente na trajetória de personagens como Leon.
Essa talvez tenha sido uma das decisões mais acertadas da produção.
A comédia funciona — mesmo exagerando algumas vezes
Resident Evil sempre teve seus momentos absurdos.
Quem acompanha a franquia há muitos anos sabe que, apesar do terror, existe uma certa dose de exagero praticamente em todas as gerações dos jogos.
Por isso, a presença da comédia é importante para o filme.
Em alguns momentos ela passa um pouco do ponto e acaba quebrando parte da tensão construída anteriormente. Ainda assim, retirar completamente esse lado provavelmente deixaria o longa sério demais para a história que decidiu contar.
Bryan funciona justamente porque não é um soldado treinado.
Ele se assusta, toma decisões questionáveis, fala demais e reage às situações de uma maneira muito mais próxima de uma pessoa comum tentando sobreviver.
O equilíbrio nem sempre é perfeito, mas o humor faz parte da identidade proposta pelo filme.
Faltou apenas uma coisa: 1998
Uma escolha que poderia ter aumentado consideravelmente a imersão seria situar a história de maneira mais clara no período clássico da franquia.
O filme não trabalha constantemente com uma data específica e, principalmente pelos veículos e por diversos elementos visuais, existe uma sensação de que a história acontece nos dias atuais.
Uma simples abertura com a tela escura e a frase:
“JULY 1998”
já mudaria completamente essa percepção.
Não seria necessário conectar diretamente os acontecimentos ao primeiro Resident Evil, mas a referência colocaria imediatamente o espectador dentro daquele período histórico da série.
Além disso, reforçaria ainda mais a ideia de que aquela história está acontecendo paralelamente aos grandes acontecimentos conhecidos pelos jogadores.
A neve não era necessária
Outra decisão visual questionável está na utilização da neve.
Ela certamente ajuda na construção da atmosfera e resulta em algumas imagens interessantes, mas ao mesmo tempo distancia a produção da Raccoon City tradicionalmente conhecida pelos jogadores.
Sem a neve e com uma ambientação claramente situada no final dos anos 1990, a sensação de estar acompanhando mais uma história ocorrendo enquanto os eventos principais dos jogos acontecem em outro ponto da cidade provavelmente seria ainda maior.
É uma escolha relativamente pequena, mas que teria grande impacto na identidade do filme.
## Os Easter eggs são simplesmente sensacionais
Se existe uma área em que o filme praticamente não erra, são as referências aos jogos.
E o mais interessante é que muitas delas não interrompem o filme apenas para chamar atenção do público.
Elas simplesmente estão lá.
Existem First-Aid Sprays, Green Herbs, máquinas de escrever, armas e munições posicionadas de maneiras extremamente familiares para qualquer jogador da franquia.
Também aparecem diversos cadeados e obstáculos espalhados pelos cenários, lembrando constantemente aquela lógica clássica de Resident Evil em que atravessar uma simples porta pode exigir uma chave específica encontrada do outro lado do mapa.
Há também momentos utilizando perspectiva em primeira pessoa, além de enquadramentos que parecem reproduzir diretamente a linguagem dos jogos.
Outro detalhe bastante interessante é a exploração da cidade.
Becos, caminhos bloqueados e rotas alternativas acabam levando o protagonista para locais como os esgotos, reproduzindo uma das estruturas mais tradicionais da franquia.
Mais do que simplesmente inserir Easter eggs, o filme consegue reproduzir a lógica de progressão de Resident Evil.
O personagem entra em um lugar, encontra uma ameaça, procura uma saída, percebe que o caminho está bloqueado, precisa encontrar uma rota alternativa e inevitavelmente acaba chegando a algum ambiente ainda mais perigoso.
Isso é Resident Evil.
Existe até um “chefão” perseguindo o protagonista
Outro elemento que funciona muito bem é a presença de uma criatura que constantemente persegue Bryan.
É impossível não associar esse recurso aos grandes perseguidores da franquia.
Nemesis, Mr. X e outras criaturas transformaram essa mecânica em uma das características mais marcantes de determinados jogos.
O filme consegue transportar essa sensação para o cinema sem precisar simplesmente colocar um desses personagens clássicos na tela.
Mais uma vez, demonstra entender não apenas as referências visuais da série, mas também por que determinadas mecânicas funcionavam tão bem nos jogos.
O laboratório é onde o filme mais perde força
Nem tudo funciona.
A parte final, principalmente quando a história chega ao laboratório, é provavelmente o momento mais fraco do longa.
Resident Evil sempre teve cientistas completamente insanos, experimentos absurdos e corporações tomando decisões que obviamente terminariam em catástrofe.
Isso faz parte da franquia.
O problema é que alguns personagens dessa sequência parecem quase abobados.
Existe uma diferença entre apresentar cientistas arrogantes, obcecados ou completamente desconectados das consequências de suas pesquisas e transformá-los em personagens excessivamente caricatos.
Em determinados momentos, o comportamento deles prejudica a atmosfera construída anteriormente.
O filme havia conseguido criar boas sequências de tensão, exploração e horror e, justamente próximo ao encerramento, acaba entrando em um tipo de humor que funciona menos.
Isso não destrói a experiência, mas quebra um pouco a atmosfera exatamente no momento em que a história deveria estar chegando ao auge.
Afinal, é um bom Resident Evil?
Sim.
Não é um filme perfeito.
Existem escolhas que poderiam ser diferentes, algumas piadas poderiam ser reduzidas, a sequência do laboratório poderia trabalhar melhor seus personagens e uma ambientação explicitamente situada em 1998 provavelmente aumentaria bastante a conexão com os jogos.
Mas existe algo que esse filme consegue fazer melhor do que várias adaptações anteriores:
ele faz o espectador se sentir dentro de Resident Evil.
Não necessariamente dentro da história de Leon.
Não dentro da história de Jill.
Não acompanhando Chris ou Claire e nem assistindo a uma tentativa de reproduzir exatamente as salas de algum jogo específico.
A sensação é simplesmente de acompanhar outra pessoa tentando sobreviver naquele mesmo universo enquanto, em algum outro lugar, as grandes histórias conhecidas pelos jogadores também poderiam estar acontecendo.
Talvez seja justamente por isso que o filme remeta tanto a Resident Evil Outbreak.
E talvez esse seja um dos caminhos mais interessantes para Resident Evil no cinema.
Não tentar substituir os jogos.
Não tentar recontá-los.
Apenas contar novas histórias dentro daquele mundo.
Se essa era a missão de Zach Cregger, o novo Resident Evil acerta.
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